Crochê: Uma conversa entre linhas e agulhas

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De onde surgiu a vontade de te dedicares ao crochê?

Surgiu da vontade de aliviar o stress e fazer alguma espécie de terapia para a paciência, se é que tal coisa existe mesmo!

Eu sou daquelas pessoas que quando diz que vai relaxar a ver um filme, não aguenta metade do filme quieta, preciso de fazer algo mais a não ser que esteja mesmo cansada ou com sono.

Como isso me frustrava bastante, pensei automaticamente no crochê para ocupar as minhas mãos. Ainda tinha um par de agulhas guardadas do tempo em que a minha avó me ensinou os primeiros passos nesta arte. Tinha 11 ou 12 anos, se bem me recordo, e nessa altura não tinha grande interesse ou paciência para ele.


Foi difícil de começar? Houve algum momento em que tenhas tido a vontade de desistir?

No início ficava um pouco frustrada porque não entendia nada acerca de tensão de linha, o que dava um efeito bastante desalinhado aos pontos que eu fazia, eheheheh. Ora havia pontos mais apertados, outros muito soltos, outra vezes não reparava e lá dava um ponto a mais ou saltava outro… enfim. Quando comecei foi uma aventura e pêras, enquanto me agarrava a toda a paciência e insistência do mundo, mas nunca pensei em desistir.

 
O crochê surgiu na minha vida como uma forma de aliviar o stress, uma autêntica terapia, e tornou-se num hobby indispensável!
 

Como disseste, a tua avó ensinou-te o básico há uns anos atrás… então essa memória manteve-se, não foi?!

Sim e não. O básico acho que nunca se esquece, é como andar de bicicleta. Quanto ao resto, foi muito tempo passado em frente ao computador a procurar esquemas gratuitos e simples, no meu caso, como eu queria aprender a arte dos amigurumi tive de aprender a técnica do crochê em espiral.

Confesso que não foi nada fácil e no começo eu achava aquilo tão fácil que saltei um passo essencial e tentei logo fazer os meus próprios bonecos. Claro está que não correu nada bem. Aprendam com o meu erro: tenham a paciência de aprender a fazer bolas e bonecos básicos, acreditem que não é tão fácil quanto aumentar e diminuir pontos.
 

Quais são para ti os principais elementos para se desfrutar do crochê e evitar erros?

Apesar de já o ter dito e repetido várias vezes aqui, paciência, tanto para aprender como para fazer. Tempo é outro elemento importante a considerar visto que alguns trabalhos podem demorar meses a serem feitos.

Quanto às coisas mais técnicas do crochê, aqui vão alguns pontos que considero importantes:

. não é preciso fazer um projecto de cada vez. Eu gosto de combinar 2 projectos de cada vez, 3 no máximo. A ideia é fazer um projecto logo, como uma manta, e um projecto curto, como um ou vários amigurumi pequenos. 

. se fizer um trabalho longo, é aconselhável fazer pausas para descansar as mãos ou corre-se o risco de ganhar uma tendinite ou simplesmente ficar com dores nas mãos. Já me aconteceu doer tanto a mão direita que fiquei 2 dias sem fazer crochê.

. a acrescentar ao ponto acima temos a tensão da linha, quanto mais tensão lhe dermos (quanto mais a apertarmos) mais apertados ficam os pontos e menos fluido será o trabalho.

. adoro crochetar amigurumi mas não gosto tanto de costurar as partes. Aliás, costurar em geral não é bem o meu forte, assim sendo, eu prefiro fazer logo todos os meus bonequinhos de uma vez e deixar as costuras para o fim de tudo.
 

Onde vais buscar inspiração para as tuas criações?

Algumas peças surgem por necessidade, ora porque preciso de um porta-moedas ou de uma bolsa para arrumação. Noutros casos, são restos de linhas que se acumulam e então aproveito-os para fazer bonequinhos pequenos ou porta-chaves. Como vêem, o crochê é uma arte bastante versátil!

Para trabalhos mais elaborados ou quando a inspiração está um pouco turva eu uso e abuso do Pinterest. Olhem que novidade, não é!

Pois é, o Pinterest é o “canivete suíço” para muita gente e eu não sou excepção. Tenho o meu board onde colecciono ideias aos pontapés e depois tenho outro para os trabalhos que estou a fazer no momento e os 2 próximos na lista de espera. Isto é uma boa forma de não me dispersar e ter uma lista de trabalhos de acordo com a quantidade e cores de linha que tenho disponíveis.

Apesar de ainda não ter explorado o que as bancas de revistas em Portugal oferecem, enquanto vivi em Dublin descobri duas revistas: Simply Crochet, a qual subscrevo a versão digital, e a Inside Crochet. Quem quiser pode comprar as 2 revistas, mas como encontrei tanto com que me entreter com uma, achei melhor não me sobrecarregar e fontes de inspiração senão dá-me vontade de fazer tudo e não faço nada.
 

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Falando em linhas e materiais, podes partilhar quais são as tuas fontes de matéria-prima?

Claro que sim! Até porque gostaria de ver mais gente envolvida.

Enquanto vivia na Irlanda eu recorria a uma retrosaria perto de casa que tinha o básico e essencial: agulhas de vários tamanhos e materiais, linhas de algodão de várias medidas e cores, marcadores de pontos, contadores de voltas entre outros materiais esporádicos.

Quando descobri a revista Simply Crochet passei a ter acesso a outras fontes de compras online, sendo a minha preferida a woolwarehouse.co.uk. Eles fornecem uma variedade enorme de linhas e materiais a preços mais acessíveis o que compensa quando temos de comprar em grande quantidade. A outra vantagem é que eles vendem sempre as mesmas marcas e cores, por isso, se estiver a fazer uma manta e acabarem as linhas, posso encomendar mais.

Eu digo isto porque, desde que voltei para Portugal não encontro retrosarias perto de mim - não há nada melhor que poder ver e tocar no material que queremos, porque já se sabe quem nem sempre as fotos mostram exatamente a cor da linha -, ir à loja dos chineses é porreiro mas se for uma loja que vai vendendo novelos aleatórios, corre-se o risco de ficar com um trabalho por terminar ou arriscar continuar com uma cor parecida.

Conclusão, na minha opinião não há nada melhor do que ter uma ou duas fontes fixas para se comprar material, é da maneira que ficamos sempre a saber com o que podemos contar ou mais.

Outra loja que me esqueci de mencionar e que ando mortinha por visitar é a Retrosaria Rosa Pomar. E assim que arranjar uma desculpa para ir à Baixa passear, esta vai ser com certeza uma paragem obrigatória! Para quem como eu ainda não foi lá, pode-se deslumbrar com a loja online aqui: https://retrosaria.rosapomar.com/.
 

Numa pergunta anterior mencionaste que evitas sobrecarregar-te de inspiração. Não achas que não existe tal coisa como inspiração a mais? 

Não, de todo! Eu concordo que inspiração nunca é demais, o problema é que é mais fácil de perder o foco dos meus objectivos. O ideal é dedicar-me duas coisas de cada vez, no máximo. Isto é, um projecto longo ao mesmo tempo que faço um mais curto, ou então dedicar-me a um tema que pode se, por exemplo, só fazer acessórios de arrumação e decoração de casa.

Exemplo A: Tenho material para fazer uns cestos de trapilho que vi no Pinterest. Então, tiro medidas à quantidade de cestos ou bolsas que posso fazer com o material que tenho e combino com as sugestões do Pinterest.

Exemplo B: Estou a fazer um trabalho com um ponto básico mas que vai demorar, então procuro na revista ou no Pinterest um projecto mais desafiante, seja pelo ponto mais complexo ou pela peça em si.

Neste momento o meu foco está em criar objectos que possam ser usados: bolsas de vários tamanhos e feitios. Para cada bolsa que crio posso aplicar novas técnicas que quero aprender como: trabalhar com 2 cores em simultâneo, usar um ponto mais complexo, usar a técnica da espiral ou de filas, e por aí fora. 

Acho que poderia ficar a falar sobre este assunto o dia todo, apesar de ter noção que eu ainda só explorei a ponta do iceberg do crochê. Mas eu também não quer saber tudo, quero explorar e encontrar o meu próprio estilo.
 

E por fim, que mensagem deixas a quem te segue e que esteja a pensar em experimentar?

Experimentem! Arranjem linha e uma agulha e tentem fazer os pontos básicos. Não desistam à primeira, pensem antes que na prática é que está o ganho. Mesmo tendo tido a minha avó para me ensinar o básico, eu considero-me autodidata e evoluí sozinha. Foram muitas horas de vídeos tutoriais, experiências, contagens e exploração de esquemas já para não falar dos quantos trabalhos que não desfiz e diz vezes sem conta até acertar com as contas.

Quando se faz algo por gosto, não há como se fartar ou perder o interesse. Até me posso sentir sem vontade ou cansada uma vez por outra, mas fora isso não há como ficar longe das minhas agulhas por muito tempo.

Já agora, se alguém tiver conhecimento de comunidades de crochê em Portugal estejam à vontade para deixar os links nos comentários abaixo. Ainda não explorei muito este campo, mas nada me deixaria mais feliz do que partilhar ideias e conhecimento!

 

 

Espero que tenham gostado desta entrevista que a minha amiga M. preparou para o meu blog, na tentativa de saber mais sobre o que tanto me atrai ao crochê. - Acho que nunca escrevi tantas vezes essa palavra como agora.